OS ANOS 2000 E A ERA TREVOSA DOS GAMES
Sempre existiram tendências no mundo dos games, como em quase tudo na cultura pop, é só algum produto estourar em popularidade que todo mundo trata logo de correr atrás e tentar tirar uma lasquinha desse sucesso, isso é algo comum, e até benéfico visto de um certo ângulo, pois a concorrência ajuda a lapidar o estilo até que ele alcance o seu ápice. O que seriam dos jogos de luta, por exemplo, se a única franquia existente fosse Street Fighter e não houvessem Mortal Kombat, King of Fighters, etc?
A história dos games tem início no começo dos anos 70, mas foi no final dos anos 80 com o Nintendinho que a popularidade dos consoles caseiros explodiu, foi nessa década em que muitas crianças puderam ter seu primeiro contato com os videogames, essas mesmas crianças passaram a próxima década jogando franquias consagradas até hoje, como por exemplo, Mario, Sonic, Zelda, etc. a indústria focava seu conteúdo, não exclusivamente, mas principalmente no publico infantil.
Só que crianças crescem rápido, e seus gostos mudam mais rápido ainda, no começo dos anos 2000 essas crianças estavam entrando na adolescência, e se você já passou por essa fase, sabe que nessa época o individuo tenta ao máximo se desassociar de tudo o que possa fazê-lo parecer infantil. Com isso a indústria começou a focar em jogos com temas mais maduros, regados a violência e sexo, foi nessa época que vimos a consagração de franquias como GTA e God of War, para citar alguns.
Com esse novo cenário, as produtoras mais tradicionais estavam em um dilema, possuíam franquias valiosíssimas, mas que apresentavam desgaste com o novo público, o que fazer então? Para a surpresa de ninguém, optaram seguir pelo caminho mais fácil e decidiram reformula-las na esperança de torna-las atrativas novamente, isso deu início ao que eu chamo carinhosamente da Era Trevosa dos videogames.
Essa guinada ao edgy, termo usado para definir aquele tipo de adolescente que só usa preto e ouve Linkin Park, trouxe jogos no mínimo inusitados, alguns ficaram bons, mas a grande maioria é apenas bizarro, e essa onda emo/trevosa/radical afetou desde franquias que já não eram tão infantis, até mascotes fofinhos como o Bomberman. Aqui eu quero listar alguns deles:
Shadow the Hedgehog
Quando falamos dessa era, Shadow the Hedgehog é sem dúvidas o primeiro nome que nos vem a cabeça. A franquia Sonic já estava tentando deixar de lado a figura de mascote infantil desde Sonic Adventure para o Dreamcast, onde houve uma mudança no tom fofinho do Mega Drive, para um mais radical/Rock n' Roll, mas foi no jogo do Shadow que isso atingiu seu ápice, o jogo tinha direito a tudo o que o adolescente gostava da época (ou o que os executivos achavam que os adolescentes gostavam) sendo sombrio, melancólico, com uma trilha sonora pesada, onde você controla o rival do Sonic em busca de respostas sobre o seu passado, para isso você conta com um grande arsenal de armas de fogo e veículos e pode seguir pelo caminho do herói ou vilão, isso nos trás pérolas, como por exemplo, poder atirar em policiais em um jogo da franquia Sonic, e não é só isso, com vários finais, vemos alguns onde Shadow mata o Dr. Robotnick a sangue frio. Para muitos foi a partir desse jogo que a franquia Sonic se perdeu, culminando no horrível Sonic 06.
Apesar dos problemas do Game, a trilha sonora é muito boa (padrão da série Sonic) e a abertura em computação gráfica é muito bonita, até para os padrões de hoje.
Bomberman Act : Zero
Ok, Shadow é o principal jogo que nos vem a cabeça quando falamos da era trevosa dos games, mas ele, apesar de tudo, ainda é um spin off da franquia Sonic, e utiliza um personagem que já era sombrio em sua origem, já Bomberman Act : Zero não pode contar com a mesma colher de chá.
Definitivamente não dá para entender o que os desenvolvedores tinham na cabeça na hora de fazer essa atrocidade ao mascote simpático que conhecemos, essa é sem dúvidas a mudança mais radical a um personagem dessa lista. A ideia central do jogo permaneceu a mesma, mas a nova roupagem sombria, e os novos designs não agradaram nem ao público, nem a critica, fazendo esse jogo ser o patinho horroroso da franquia Bomberman.
Aqui temos um exemplo diferente dos outros, onde a roupagem dark a uma franquia clássica resultou em um jogo excelente.
Após o sucesso de Ocarina of Time e Majora's Mask a Nintendo surpreendeu a todos ao lançar o jogo The Legend of Zelda - The Wind Waker, que diferente dos anteriores tinha uma proposta mais infantil e colorida, com gráficos em cell-shading imitando desenhos animados (lindos até hoje). Isso causou o descontentamento dos fãs, e uma enxurrada de críticas (injustas) a nova proposta, o que fez a Big N dar uma volta de 180 graus em seu próximo jogo da franquia.
Twilight Princess bebe muito do que Ocarina of Time e Majora's Mask fizeram anteriormente, só que em uma roupagem muito mais sombria e melancólica que os anteriores (majora's já era bem sombrio), o game é não só o Zelda com o enredo mais sério, como o mais violento da série, contando com cenas que parecem ter saído de um jogo de terror (sim cutscene do dark Link, estou falando de você), mas para a surpresa de todos o jogo foi um sucesso de critica e público, o tom mais sério e épico caiu como uma luva para a aventura de Link, e o jogo é lembrado por muitos como um dos melhores da franquia, rendendo até mesmo relançamentos futuros.
Prince of Persia é outro exemplo interessante onde a roupagem dark trouxe um game muito bom, mas esse jogo tem uma diferença muito grande com a aventura trevosa do Link. Em Warrior Within a Ubisoft errou a mão e fez um jogo tão dark/fodão/radical que acabou se tornando algo caricato.
Sands of time, o antecessor desse, tinha sido um sucesso com sua mecânica de parkour e viagem no tempo, o jogo tinha toda aquela vibe de sessão da tarde e histórias das 1001 noites, mas para a sequência, a Ubisoft, aproveitando a onda dark e violenta da época, fez um Prince sombrio, violento e boca suja, com trilha sonora heavy metal e mulheres seminuas (a primeira cena do jogo é uma bunda).
Mesmo assim, o jogo consegue ser divertido, e fez muito sucesso na época. As criticas ao tom do jogo fizeram a Ubisoft voltar atrás e sua sequência, Two Thrones, parece muito mais com o primeiro jogo do que com esse.
Os jogos citados acima são os maiores exemplos que vem em minha mente quando penso na era trevosa dos games, mas não são nem de longe os únicos exemplos de franquias que decidiram seguir pelo lado sombrio da força, e é bom lembrar também que essa tendência não atingiu apenas os games, como também a música, não podemos esquecer que essa época foi o auge de gêneros musicais como o new metal e o emo.
A seguir algumas menções honrosas, boas e ruins, de jogos que passaram lápis de olho, colocaram uma camisa de banda e se trancaram no quarto para curtir sua vibe Edgy:
Tomb Raider - The Angel of Darkness
Ratchet & Clank - Deadlocked
Mario Strikers Charged
Jak II - Renegade









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